p-i-r-a-d-o:
“dirtlegends:
“ North Cascade Forest
scottchanninghall.vsco.co
Insta: @scottchanning
”
x
”
m-e-d-u-l-a:
“🌞
”
Há tempos que levaram tua alma. Há tempos que beberam todo o teu sangue. Há tempos que cegaram teus sonhos, calaram teus olhos, profanaram teu nome, secaram tua saliva. Você não passa de um ramo seco numa cesta. Insone. Vazia. Profunda. O que você foi - se é que um dia ousaste ser além do que os outros quiseram ser os outros em você - não se repetirás de novo a não ser em teus tragos de cigarros baratos que você usa pra encenar as noites infindas que não mais crescem. Não é assim que funciona o teu mero viver? O mundo só não te cospe garganta à fora, pra não ter que lidar com o teu gosto amargo de uma flor murcha - que outrora enfeitara mesas pra dois e agora emantece funerais até pouco acima dos joelhos. Você só não desaparece no ar latejante de uma tarde mórbida, porque nenhum vazio é maior do que o vazio em que você se tornou. Sabe, é um sarro te assistir tonto e desesperado, correndo pra todo lado sem alcançar lugar algum. Nada mais humilhante que querer ser labirinto torto e todo mundo passando reto. Teus pés já não doeram que chega? Você nunca morou nas extremidades dos teus próprios abismos. Nunca andou em linhas promíscuas de mãos atadas com teus fantasmas. Nunca se expôs ao desalento do substrato dos olhos. Você nunca se permitiu fruir ao avesso, pra que tenho interior fostes mais vivível que um poste. Nunca aprendeu com as borboletas a pousar nas pétalas sem se preocupar em magoar suas asas. Há tantas coisas proibidas, silenciadas, perdidas por dentre os muros que erguestes, que se elas ousassem sair assim, de repente para a rua e gritassem, encheriam o mundo. Sentes que por dentro algo está prestes a se acabar em um terremoto? O verdadeiro amanhecer é noturno pra quem vive a recolher destroços de pedaços de pessoas acabadas. Os bolsos cheios de fissuras para acompanhar o resto das mãos. As mãos cheias de anéis para desafiar os dedos. Os dedos cheios de pedras do terço para esquecer o nada das mãos. Por que você sonha em fugir, baby? Chora! Mostre que por dentro ainda tem vida. Viva! Mostre pro choro o que está dentro do que está fora do que está dentro. Se ajoelhe sobre teus restos, se é que ainda restaste alguma coisa ímpar, e ore para as paredes te ouvirem, porque nenhum voz trêmula é capaz de ressuscitar santos inóspitos pelos ouvidos. Nenhum sopro teu é capaz de apagar uma vela que já nem acende. Derretida. Fossilizada. Cáustica. No permear lacerante do aqui e agora, enquanto queima mais um dos teus cigarros - nesse cinzeiro sujo e fedido que é isso que você chama de vida… Tentando catastroficamente esquecer destes teus vícios em criar desumanidades, em pisar sobre miragens e extraviar vendavais solenes de fraqueza ao desalento, por ser celeste de mais pra se apegar ao que é mundano e só saber amar o que é assumidamente feito de pó.

Michael Letto (via oxigenio-dapalavra)

Sat, 7th Nov — 526 notes
Next